O MELHOR TABLET PARA O SEU FILHO NESTE NATAL

EO 2017 Opinião | Rosário Carmona e Costa, Psicóloga*
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Agora que se aproxima a época mais esperada do ano para a grande maioria dos miúdos (e alguns graúdos) tenho assistido, nas redes sociais, às perguntas de muitos pais acerca de qual o melhor tablet para oferecer aos filhos a partir dos dois anos. Eu sei a resposta: nenhum.

Por defeito de especialização esta pergunta mexeu comigo e comprovou a necessidade urgente de alertar os pais para o perigo excessivo da utilização de novas tecnologias. E, ajustando desde já as expetativas que a palavra “perigo” neste contexto pode trazer, refiro-me sobretudo aos perigos para um bom e equilibrado desenvolvimento emocional e intelectual (os perigos físicos  - postura, visão, obesidade etc - deixo para outras núpcias).

Não sendo possível contornar a evidência de que as novas tecnologias invadiram o nosso quotidiano, não querendo negar todas as coisas boas (muito boas) que acrescentaram às nossas rotinas e não querendo retirar mérito e valor às vantagens da sua utilização – desde que introduzida gradualmente à medida do crescimento das crianças – , importa fazer uma reflexão acerca do que se perde ou se prejudica quando essa utilização acontece desde tenra idade.

Recentemente, foi batizado um conjunto de sintomas que todos os pais de crianças pequenas já tiveram oportunidade de presenciar e que nós, especialistas em desenvolvimento infantil, temos vindo a notar na forma de queixas crescentes em consulta. O nome: Síndrome de Ecrãs Eletrónicos (SEE). No fundo, a SEE categoriza aquelas crianças que apresentam sintomas como flutuações de humor, birras excessivas ou inapropriadas, baixa tolerância à frustração, comportamentos de oposição e alterações do sono.

A verdade é que, depois de me ter deparado com esta nova abordagem ao problema, passei a ver muitos dos casos de crianças entre os 2 e os 5 anos de idade que me chegavam à consulta, com suspeitas por parte dos pais ou dos pediatras de alguma perturbação do desenvolvimento, com outros olhos e à luz de outras hipóteses clínicas. Quem, afinal, teria a responsabilidade terapêutica? Os pais.

Muitos destes sintomas são fáceis de eliminar através da reeducação da família na utilização das novas tecnologias. Como? Diminuindo o tempo de ecrãs por dia, revendo os conteúdos a que a criança está exposta, ensinando formas alternativas de interação e comunicação, aumentando o leque de atividades que provocam interesse, ensinando pela modelagem e pela presença, dando espaço à relação…

Deixemos para depois as consequências a nível comportamental que todo este excesso de ecrãs trará no futuro. Para já, não perca muito tempo na escolha do presente ideal para o seu filho – tem nas suas mãos, no seu colo e no seu coração o que ele verdadeiramente precisa. E é de borla.


*Especialista em Adição à Internet, Cyberbullying e Psicologia da Web, autora do livro “i Agora? Liberte os seus filhos da dependência dos ecrãs” (A Esfera dos Livros, 2017)